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Seção 4 - Distúrbios Hepáticos e Biliares

Capítulo 41 - Hepatopatia Crônica

FIBROSE
É um acúmulo de tecido conjuntivo no fígado, que resulta de um desequilíbrio entre a produção e a degradação da matriz extracelular e é acentuado pelo colapso e condensação das fibras preexistentes.

Etiologia
A fibrose é uma resposta comum à necrose ou lesão hepatocelular, que pode ser induzida por uma ampla variedade de agentes, por exemplo, qualquer processo que perturbe a homeostasia hepática (especialmente inflamação, lesão tóxica ou alteração do fluxo sangüíneo hepático) e infecções do fígado (virais, bacterianas, fúngicas e parasitárias). Muitos distúrbios do armazenamento devido a erros inatos do metabolismo estão freqüentemente associados à fibrose, incluindo anormalidades lipídicas (doença de Gaucher); doenças do armazenamento de glicogênio (especialmente Tipos III, IV, VI, IX e X); deficiência de α1-antitripsina; depósito de substâncias exógenas, tal como se vê em síndromes de sobrecarga de ferro (hemocromatose) e doenças do armazenamento de cobre (doença de Wilson); acúmulo de metabólitos tóxicos (como na tirosinemia, frutosemia e galactosemia) e distúrbios peroxissômicos (síndrome de Zellweger). Muitas substâncias químicas e drogas causam fibrose, especialmente álcool, metotrexato, isoniazida, oxifenisatina, metildopa, clorpromazina, tolbutamida e miodarona. Distúrbios da circulação hepática (por exemplo, insuficiência cardíaca crônica, síndrome de Budd-Chiari, doença venoclusiva, trombose da veia porta) e obstrução crônica do fluxo biliar podem levar à fibrose. Finalmente, a fibrose hepática congênita é uma malformação autossômica recessiva.

Patogênese
O fígado normal é constituído por hepatócitos e sinusóides distribuídos dentro de uma matriz extracelular composta de colágeno (predominantemente Tipos I, III e IV) e proteínas não colagenosas, incluindo glicoproteínas (por exemplo, fibronectina, laminina) e vários proteoglicanos (por exemplo, sulfato de heparan, sulfato de condroitina, sulfato de dermatan, hialuronato). Os fibroblastos, normalmente encontrados apenas nos espaços portais, podem produzir colágeno, glicoproteínas grandes e proteoglicanos.

Outras células hepáticas (particularmente hepatócitos e células endoteliais, de Kupffer e armazenadora de gordura [de Ito]) também podem produzir componentes de matriz extracelular. As células armazenadoras de gordura, localizadas abaixo do endotélio sinusoidal, no espaço de Disse, são precursoras de fibroblastos, capazes de proliferar e produzir um excesso de matriz extracelular. O desenvolvimento da fibrose a partir da deposição ativa de colágeno é uma conseqüência de lesão das células hepáticas, particularmente necrose, e células inflamatórias. Não se conhecem os fatores precisos liberados dessas células, mas são prováveis uma ou mais citocinas ou produtos de peroxidação de lipídeos. As células de Kupffer e os macrófagos ativados produzem citocinas inflamatórias. Formam-se fibroblastos novos ao redor de células hepáticas necrosadas; o aumento da síntese de colágeno leva à formação de cicatriz. A fibrose pode
derivar da fibrinogênese ativa e ao retardo da degradação de colágeno normal ou alterado. Células de depósito de gordura, células de Kupffer e células endoteliais são importantes no “clearance” do colágeno Tipo I, vários proteoglicanos e colágenos desnaturados. Alterações nas atividades dessas células podem modificar a extensão da fibrose. Para o histopatologista, o tecido fibroso pode se tornar mais aparente a partir de um colapso passivo e condensação das fibras preexistentes.

As faixas de fibrose que ligam os espaços portais com as veias centrais também promovem canais anastomóticos: o sangue arterial, que se desvia dos hepatócitos normais, é desviado para as veias hepáticas eferentes, o que prejudica ainda mais a função hepática e pode acentuar a necrose hepatocelular. A extensão na qual esses processos estão presentes determina a magnitude da disfunção hepática, por exemplo, na fibrose hepática congênita, faixas grandes de fibrose envolvem predominantemente as regiões portais, mas em geral poupam o parênquima hepático. A fibrose hepática congênita, portanto, apresenta-se como hipertensão portal com preservação da função hepatocelular.

Diagnóstico e tratamento
Embora a fibrose seja comum a várias hepatopatias crônicas, o aspecto clínico que reflete predominantemente a fibrose hepática é a hipertensão portal (ver Cap. 38).

O diagnóstico histológico depende do exame da biópsia hepática. Colorações especiais (por exemplo, anilina azul, tricromo, corantes de prata) podem evidenciar o tecido fibroso. Como a fibrose é um sinal de lesão hepática, seu tratamento é geralmente direcionado à causa de base.

CIRROSE
É a desorganização difusa da estrutura hepática normal por meio de nódulos regenerativos que são circulados por tecido fibrosado.

Os nódulos contêm tipicamente placas de células hepáticas com espessura de duas a quatro células e vênulas localizadas esparsamente. As alterações patológicas da cirrose envolvem geralmente todo o fígado. A fibrose extensa, mesmo com nódulos regenerativos (isto é, cirrose), geralmente é irreversível, embora a fibrose em animais possa se resolver, dependendo do projeto experimental. Em seres humanos, a lesão cirrótica é permanente. A regeneração nodular é uma tentativa inútil de reparo.

Fibrose não é sinônimo de cirrose, que também inclui formação de nódulos e cicatriz suficientes para causar deterioração da função hepática. A transformação nodular parcial do fígado ou hiperplasia regenerativa nodular (ou seja, nódulos sem fibrose) e fibrose hepática congênita (ou seja, fibrose disseminada sem nódulos regenerativos) não constituem cirrose verdadeira.

Etiologia
No mundo ocidental, a cirrose é a terceira causa de morte importante em pacientes com 45 a 65 anos de idade (depois das doenças cardiovasculares e dos cânceres); a maioria dos casos é secundária ao abuso de álcool crônico. Em muitas regiões da Ásia e África, a cirrose resultante de hepatite B crônica é a principal causa de óbito.

A etiologia da cirrose é semelhante àquela da fibrose: infecção, toxinas, alteração da resposta imune, obstrução biliar e distúrbio vascular. A hepatite C e outras formas de hepatite crônica (decorrente de hepatite crônica ativa auto-imune e determinadas drogas) resultam em cirrose. As causas metabólicas incluem hemocromatose, doença de Wilson, deficiência de a1-antitripsina, galactosemia e tirosinose congênita. Mesmo o diabetes melito associa-se ao desenvolvimento de cirrose. Obstrução biliar prolongada (cirrose biliar secundária), obstrução crônica de drenagem venosa (por exemplo, síndrome de Budd-Chiari) e desnutrição podem levar à cirrose. A cirrose de etiologia desconhecida, chamada de criptogênica, é diagnosticada menos freqüentemente à medida que se tornam disponíveis diagnósticos mais específicos (por exemplo, infecção pelo vírus da hepatite C crônica). A cirrose biliar primária é discutida adiante e a colangite esclerosante primária é discutida no Capítulo 48.

Patogênese
A cirrose é o estágio final de muitas formas de lesão hepática caracterizadas inicialmente por fibrose. A progressão de fibrose para cirrose e a morfologia da cirrose dependem da extensão da lesão, presença de lesões contínuas e resposta do fígado às lesões. A cirrose relaciona-se não tanto aos agentes lesivos, como ao tipo de lesão e à resposta do fígado à mesma. O fígado pode ser lesado aguda e gravemente (como na necrose submaciça com hepatite), moderadamente durante meses ou anos (como na obstrução do trato biliar e hepatite crônica ativa), ou modestamente, mas de maneira contínua (como no abuso de álcool). As citocinas e os fatores de crescimento hepático (por exemplo, fator de crescimento epidérmico) são presumivelmente responsáveis pela resposta à lesão: fibrose mais nódulos em regeneração.

Durante o processo de regeneração, formam-se novos vasos dentro da bainha fibrosa que circunda os nódulos sobreviventes das células hepáticas; essas “pontes” conectam a artéria hepática e a veia porta com as vênulas hepáticas, restaurando a via circulatória intra-hepática. Tais vasos interconectantes recebem sangue dos sinusóides e proporcionam uma drenagem de alta pressão e volume relativamente baixo, que é menos eficiente do que a normal e resulta em aumento da pressão na veia porta (hipertensão portal). O fluxo sangüíneo desordenado para os nódulos e compressão das vênulas hepáticas por parte dos nódulos em regeneração também contribuem para a hipertensão portal.

A cirrose não é estática; seus aspectos dependem da atividade e do estágio da doença. A classificação morfológica da cirrose faz pouco para revelar sua causa.

Classificação histopatológica – A cirrose micronodular caracteriza-se por nódulos uniformemente pequenos (< 3mm de diâmetro) e faixas regulares de tecido conjuntivo. Tipicamente, os nódulos não possuem organização portal; as vênulas hepáticas terminais (centrais) ou os tratos portais são difíceis de identificar. A cirrose macronodular caracteriza-se por nódulos que variam em tamanho (3mm a 5cm de diâmetro) e contêm uma certa estrutura lobular normal (tratos portais, vênulas hepáticas terminais). Faixas largas fibrosas de espessura variável circundam os nódulos grandes. O colapso da arquitetura hepática normal é sugerido pela concentração de tratos portais dentro das cicatrizes fibrosas. A cirrose mista (cirrose septal incompleta) combina elementos das cirroses micro e macronodular. A regeneração na cirrose micronodular pode resultar em cirrose macronodular ou mista. A conversão de cirrose micronodular em macronodular leva > 2 anos.

Sintomas e sinais
A cirrose resulta em algumas características exclusivas da causa (por exemplo, prurido na cirrose biliar primária) e em complicações maiores: hipertensão portal com sangramento de varizes, ascite ou insuficiência hepática que leva a insuficiência renal e coma.

Muitos pacientes com cirrose ficam assintomáticos por anos. Outros mostram fraqueza generalizada, anorexia, mal-estar e perda de peso. Com a obstrução do fluxo biliar, tornam-se proeminentes icterícia, prurido e xantelasma. A desnutrição é comum, secundária a anorexia com consumo alimentar fraco, malabsorção de gordura e deficiência de vitaminas lipossolúveis causada pelos efeitos da excreção reduzida de sais biliares. Na hepatopatia relacionada ao álcool, a insuficiência pancreática pode ser um fator mais importante. Uma apresentação mais drástica é a hemorragia GI maciça a partir de varizes esofágicas secundária à hipertensão portal. A apresentação inicial pode ser ocasionalmente a de uma insuficiência hepatocelular com ascite ou encefalopatia portossistêmica (ver Cap. 38).

Um fígado firme e palpável com bordas rombas é característico, mas, às vezes, o fígado fica pequeno e difícil de palpar. Os nódulos em regeneração só ocasionalmente são palpáveis. Pode estar presente ascite com hipertensão portal, esplenomegalia e uma circulação venosa colateral. Outros sinais clínicos podem sugerir hepatopatia crônica, particularmente nos alcoólatras, mas nenhum deles é específico: atrofia muscular, eritema
palmar, contraturas de Dupuytren, aranhas vasculares (< 10 pode ser normal), ginecomastia, aumento de tamanho da glândula parótida, perda de pêlos axilares, atrofia testicular e neuropatia periférica.

Complicações
Muitas complicações graves da cirrose são secundárias à hipertensão portal, pois esta leva ao desenvolvimento de fluxo colateral do sistema venoso portal para a circulação sistêmica. A hipertensão portal está associada com esplenomegalia e, portanto, hiperesplenismo (ver Cap. 141); o desenvolvimento de vasos colaterais, que revestem o esôfago e o estômago, produz varizes. As varizes esofágicas e, menos freqüentemente, as gástricas são particularmente propensas ao sangramento que é freqüentemente maciço. Outra complicação é a hipoxemia com saturação arterial de O2 reduzida, secundária a um desvio intrapulmonar, desequilíbrio de ventilação-perfusão e redução da capacidade de difusão de O2. Além disso, podem se desenvolver icterícia, ascite, insuficiência renal e encefalopatia hepática por causa da hipertensão portal, um desvio portossistêmico, outros distúrbios circulatórios e prejuízo da função metabólica hepática. Finalmente, um carcinoma hepatocelular freqüentemente complica a cirrose associada aos vírus da hepatite B e C crônicas, hemocromatose e doença de depósito de glicogênio de longa duração.

Diagnóstico
Os testes laboratoriais rotineiros de função hepática podem se apresentar normais na cirrose. A albumina sérica diminuída e um tempo de protrombina prolongado refletem diretamente o prejuízo da função hepática. A globulina sérica aumenta em muitas formas de hepatopatia crônica. Às vezes, a transaminase fica modestamente elevada, enquanto que a fosfatase alcalina pode estar normal ou aumentada, particularmente no caso de obstrução biliar. A bilirrubina geralmente está normal. Uma anemia é razoavelmente comum e em geral normocítica, mas pode ser microcítica, hipocrômica a partir de um sangramento GI crônico, macrocítica a partir de uma deficiência de folato (no alcoolismo) ou hemolítica a partir de um hiperesplenismo. O álcool suprime diretamente a medula óssea. O hiperesplenismo também pode levar à leucopenia e trombocitopenia.

O mapeamento cintilográfico isotópico com tecnécio-99m colóide de enxofre exibe uma captação hepática irregular e um aumento da captação no baço e medula óssea. A ultra-sonografia pode revelar anormalidades texturais sugestivas de cirrose, confirmar hepatosplenomegalia e detectar características de hipertensão portal: aumento de tamanho
ou obstrução das veias portas ou esplênicas e a presença de varizes esofágicas. A ultra-sonografia Doppler pode demonstrar o fluxo sangüíneo portal. A TC avalia melhor o tamanho e textura hepáticos e, no caso de hemocromatose, também a densidade. A endoscopia é melhor para o diagnóstico de varizes esofágicas.

Prognóstico e tratamento
O prognóstico para pacientes com cirrose é difícil de estimar, pois a afecção apresenta muitas causas. Em geral, o prognóstico é ruim se estiverem presentes complicações importantes (por exemplo, hematêmese, ascite, encefalopatia hepática). O transplante de fígado para pacientes com cirrose avançada mudou o resultado a longo prazo de muitos pacientes.

Em geral, o tratamento da cirrose é de suporte: suspensão dos agentes tóxicos, atenção à nutrição (incluindo suplementos vitamínicos) e tratamento de complicações à medida em que aparecerem. Terapias específicas voltadas à alteração da produção de colágeno estão sendo avaliadas: os corticosteróides reduzem os níveis de RNAm de procolágeno e têm ação antiinflamatória; a penicilamina interfere na ligação cruzada do colágeno e a colchicina inibe a polimerização dos microtúbulos colagenosos. Corticosteróides e penicilamina são provavelmente tóxicos demais para uso crônico, e a eficácia da colchicina na redução do acúmulo de colágeno é controversa. Drogas mais recentes (por exemplo, interferon gama, análogos do 2-oxoglutarato, análogos de prostaglandinas) parecem promover a redução da produção de colágeno com toxicidade mínima. Outras drogas antiinflamatórias (por exemplo, azatioprina) têm algum benefício, particularmente
na lesão hepática imunomediada. Nenhuma delas teve sucesso suficiente para ser considerada para uso rotineiro em qualquer forma de cirrose.

CIRROSE BILIAR PRIMÁRIA
É uma doença de causa desconhecida, caracterizada por colestase crônica e destruição progressiva de ductos biliares intra-hepáticos.

Patogênese
Já se definiram quatro estágios típicos de evolução. O Estágio I é a lesão de ducto biliar exuberante, com inflamação macular e destruição dos ductos biliares septais e interlobulares. Podem ser encontrados granulomas. Segue-se a proliferação ductular do Estágio II: os espaços portais ficam distorcidos, a inflamação dissemina-se para o interior do parênquima, os ductos biliares proliferam intensamente, e desenvolve-se uma fibrose periportal. A formação de cicatriz do Estágio III continua com menos proliferação de ductos biliares e menos inflamação. Faixas fibrosas ligam os tratos portais, e a colestase da Zona 1 e os corpúsculos de Mallory podem tornar-se evidentes. O Estágio IV é uma  cirrose firme, regular e intensamente corada com bile e nódulos em regeneração, difícil de distinguir de outros processos cirróticos na ausência de granulomas e lesões patognomônicas do ducto biliar. Os problemas com essa classificação histológica são a ocorrência de sobreposição considerável, especialmente entre os Estágios II e III, e o estágio pode não representar o estado clínico (por exemplo, um paciente em Estágio III pode ficar assintomático).

Sintomas e sinais
Embora a cirrose biliar primária (CBP) possa afetar ambos os sexos e um espectro etário amplo, > 90% dos casos ocorrem em mulheres com idade entre 35 e 70 anos. Geralmente, manifesta-se insidiosamente. Cerca de 50% dos pacientes estão assintomáticos na apresentação, com anormalidades detectadas durante a triagem bioquímica sérica de rotina. Prurido, fadiga inespecífica ou ambos são os sintomas iniciais em > 50% dos pacientes, podendo preceder outros sinais por meses ou anos. Aproximadamente 50% dos pacientes apresentam um fígado aumentado, firme e sem sensibilidade; 25% apresentam esplenomegalia; aproximadamente 15% apresentam xantomas cutâneos (xantelasmas) e 10% apresentam hiperpigmentação. A icterícia está presente em 20% dos pacientes e tende a se desenvolver em outros pacientes com o tempo. São possíveis baqueteamento dos dedos, doença óssea metabólica (isto é, osteoporose), neuropatia periférica, acidose tubular renal e esteatorréia (a partir da colestase e insuficiência secretória pancreática). Posteriormente, todas as características e complicações da cirrose podem se desenvolver.
A CBP está associada comumente com distúrbios auto-imunes (por exemplo, AR, esclerodermia, sicca complex, tireoidite auto-imune).

Achados laboratoriais
Os achados iniciais são colestase com elevação desproporcional da fosfatase alcalina e da γ-glutamil transpeptidase em relação à bilirrubina e transaminases séricas. Na realidade, a bilirrubina sérica é freqüentemente normal na fase inicial do curso da doença. O colesterol e lipoproteínas séricos geralmente estão aumentados. A albumina sérica é normal na fase inicial do curso da doença. As globulinas em geral aumentam de tamanho, particularmente a IgM sérica, que é caracteristicamente muito elevada. Os anticorpos antimitocondriais contra um componente da membrana interna da mitocôndria (em > 95% dos pacientes) são importantes diagnosticamente, mas também podem ser encontrados em alguns pacientes com hepatite crônica ativa “auto-imune”.

Diagnóstico e prognóstico
O diagnóstico diferencial inclui obstrução biliar extra-hepática, hepatite crônica ativa, colangite esclerosante primária e colestase induzida por drogas. A obstrução biliar extra-hepática potencialmente curável deve ser excluída cedo. A ultra-sonografia é necessária, e algumas vezes, também uma CPRE. A biópsia hepática pode ser diagnóstica, mas é freqüentemente inespecífica. Raramente é necessária uma laparotomia diagnóstica.

O curso da CBP é progressivo, porém variável. Pode não diminuir a qualidade de vida por muitos anos. Os pacientes assintomáticos à apresentação tendem a desenvolver sintomas por 2 a 7 anos. A progressão lenta sugere uma sobrevida prolongada. Alguns pacientes apresentam sintomas mínimos durante 10 a 15 anos. Outros se deterioram em 3 a 5 anos. Uma elevação da bilirrubina sérica, associada com distúrbios auto-imunes e alterações histológicas avançadas, indica um mau prognóstico. Com bilirrubina > 6mg/dL (100μmol/L), a sobrevida é < 2 anos. O prognóstico é ameaçador quando o prurido desaparece, os xantomas se retraem e o colesterol sérico cai. Os eventos terminais são semelhantes aos de outras formas de cirrose: hipertensão portal e varizes esofágicas, ascite, insuficiência hepatorrenal e insuficiência hepática.

Tratamento

Não se conhece nenhuma terapia específica. O prurido pode ser controlado com colestiramina (6 a 12g/dia, VO, em doses fracionadas). A osteoporose é particularmente difícil de tratar: o estrogênio tem um certo valor. A esteatorréia pode requerer suplementos de Ca e vitaminas A, D e K para prevenir deficiências. As complicações da CBP são tratadas como em outros tipos de cirrose. Os corticosteróides têm sido usados, mas devem ser geralmente evitados porque pioram a osteoporose. Na maioria dos experimentos, outras drogas imunossupressivas potentes não melhoraram a qualidade ou a expectativa de vida. A colchicina 0,6mg 2 vezes ao dia diminui a fibrose e pode ter um efeito modesto. O ácido ursodesoxicólico 10mg/kg/dia melhora a função hepática, aumenta a sobrevida e retarda o transplante hepático. A CBP é uma das melhores indicações para transplante hepático. Os resultados são excelentes.

DEFICIÊNCIA DE α1-ANTITRIPSINA
A α1-antitripsina, uma glicoproteína produzida pelo fígado, confere a maior parte da capacidade do soro de inibir enzimas proteolíticas (por exemplo, tripsina). A α1-antitripsina está presente na saliva, fluido duodenal, secreções pulmonares, lágrimas, secreções nasais e LCR. O gene da α1-antitripsina está no cromossomo 14. Os seus mais de 70 alelos podem resultar em níveis normais, reduzidos ou nulos desse inibidor de protease (Pi). PiZZ é a combinação mais séria, conferindo níveis muito baixos. Esses pacientes possuem uma tendência acentuada ao enfisema panacinar adulto, podendo desenvolver hepatopatia severa.

A base da lesão hepática em PiZZ é desconhecida. Ocorre hepatopatia somente quando a α1-antitripsina se acumula nos hepatócitos. Ela pode se relacionar a um material semelhante à α1-antitripsina retido, na verdade a proteína ZZ polimerizada. Mais provavelmente, resulta da ação não inibida de proteases, especialmente elastases, levando à destruição celular.

Na deficiência de α1-antitripsina, a ação desimpedida das proteases geralmente aponta para os pulmões. Quanto mais baixa estiver a α1-antitripsina sérica, mais provavelmente se desenvolverá um enfisema (ver DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA no Cap. 68), particularmente na presença de fatores ambientais tais como fumo. Os sintomas pulmonares tendem a se desenvolver nos pacientes na 3ª década de vida.

Sintomas e diagnóstico
A deficiência de α1-antitripsina pode se apresentar como hepatopatia nas crianças, enfisema nos adultos jovens ou cirrose nos idosos. Muitos pacientes se apresentam com características de colestase e hepatite nos primeiros poucos meses de vida. Alguns morrem, mas a maioria sobrevive, com hepatomegalia residual, no final da infância, que progride para cirrose e suas seqüelas no início da idade adulta.

A maioria dos pacientes com PiZZ eventualmente desenvolve ou tem evidências de hepatopatia. A hepatite neonatal é a apresentação mais precoce de deficiência de α1-antitripsina PiZZ. Até 25% desenvolvem cirrose e hipertensão portal e morrem de complicações antes da idade de 12 anos, 25% morrem com 20 anos, e 25% apresentam fibrose hepática e disfunção hepática mínima, vivendo até a idade adulta, enquanto que 25% não exibem nenhuma evidência de doença progressiva. A evolução daqueles com PiZZ, mas sem hepatite neonatal, é obscura.

A deficiência de α1-antitripsina adulta, embora incomum, leva ao enfisema pulmonar crônico (em 60%) e cirrose (em 12%). Essas duas afecções não coexistem freqüentemente. A cirrose sintomática pode progredir de um estado micronodular para macronodular e eventualmente ser complicada pelo desenvolvimento de carcinoma hepatocelular. Pacientes com hepatopatia pela primeira vez na idade adulta geralmente possuem uma história de icterícia neonatal.

Uma globulina sérica baixa e particularmente um nível de α1-antitripsina reduzido (até 10% do normal) são característicos. O diagnóstico é confirmado através do achado de glóbulos eosinofílicos em colorações com hematoxilina e eosina de amostras biopsiais hepáticas. Esses glóbulos também são PAS-positivos.

Os recém-nascidos com colestase podem apresentar lesões hepatocelulares sem infiltrados de células inflamatórias acentuados, fibrose portal com proliferação ductal ou hipoplasia ductal. A cirrose é um achado tardio. O diagnóstico pré-natal da deficiência de α1-antitripsina provém da detecção do alelo Z nas células coletadas por amniocentese ou biópsia vilosa coriônica. No entanto, mesmo isso não prevê seguramente o resultado em termos de enfisema ou cirrose.

Tratamento

A terapia padrão deve ser direcionada à doença pulmonar: educação para não fumar, alívio de qualquer componente reversível de obstrução de vias aéreas, eliminação e prevenção de infecções broncopulmonares e medidas de saúde gerais. Não existe nenhuma terapia médica provada, tanto para estimular a produção como para substituí-la. O transplante de fígado é o único tratamento terapêutico bem-sucedido para lesão hepática grave. O fenótipo do receptor muda para o do doador de forma que o fígado novo produz α1-antitripsina normal.

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