Seção 10 - Distúrbios DermatológicosCapítulo 120 - Doenças Bolhosas(Ver também HERPES GESTACIONAL no Cap. 252.) PÊNFIGO O pênfigo, em geral, ocorre em pacientes adultos ou idosos, sendo raros os casos que acometem crianças. Existem focos endêmicos da doença na América do Sul, principalmente no Brasil. Pode-se demonstrar facilmente a presença de anticorpos IgG que se ligam ao local de lesão epidérmica no soro e pele de pacientes com a doença na fase ativa. Estes anticorpos são capazes de induzir o mesmo processo patológico in vivo e in vitro. Sintomas e sinais Em algumas variedades superficiais de pênfigo (por exemplo, pênfigo foliáceo) as bolhas podem não ser tão proeminentes e não atingir a mucosa bucal. As lesões são localizadas na face e escamas crostosas podem sugerir uma combinação de dermatite seborréica e lúpus eritematoso cutâneo subagudo. O quadro pode lembrar eritrodermia esfoliativa, psoríase, erupção por drogas ou várias outras formas de dermatites. Diagnóstico No pênfigo vulgar, a epiderme se destaca facilmente da pele de base (sinal de Nikolsky) e a biópsia em geral, apresenta clivagem suprabasal da epiderme típica. No pênfigo foliáceo esta clivagem não ocorre na região suprabasal, mas nas camadas superiores do estrato espinhoso ou do estrato granular. O teste de Tzanck (ver MÉTODOS DIAGNÓSTICOS ESPECIAIS no Cap. 109) freqüentemente é diagnóstico, corando-se o raspado de células da base da lesão com os métodos de Giemsa ou de Wright. As células acantolíticas típicas de pênfigo estão separadas umas das outras e se assemelham a células basais, com núcleo grande e central e citoplasma condensado. Os testes de imunofluorescência direta de pele perilesional ou de membranas mucosas são mais confiáveis e invariavelmente apresentam deposição de IgG na superfície epidérmica ou epitelial das células. Os testes de imunofluorescência indireta geralmente demonstram a existência de anticorpos para pênfigo no soro do paciente, mesmo quando as lesões estão localizadas na boca. O título destes anticorpos pode estar relacionado com a gravidade da doença. Tratamento O objetivo do tratamento, tanto imediato quanto subseqüente, é interromper a erupção de novas lesões. O tratamento específico depende da extensão e da gravidade da doença; baseia-se no uso de corticosteróides sistêmicos. Alguns pacientes com poucas lesões podem responder a pequenas doses orais de prednisona (por exemplo, 20 a 30mg ao dia), mas a maioria deles acaba por necessitar de doses mais altas. Os pacientes que não apresentam quadro extenso podem ser tratados como pacientes ambulatoriais. Pacientes apresentando doença generalizada devem ser internados e tratados com altas doses de corticosteróides, já que a doença pode ser fatal se não for tratada adequadamente. A dose inicial de prednisona 30 a 40mg, VO, 2 vezes ao dia (ou equivalente), deve ser dobrada caso ainda haja aparecimento de novas lesões após 5 a 7 dias de tratamento. Podem ser necessárias doses muito elevadas para que não surjam novas lesões. A dose de corticosteróide deve ser diminuída, se novas lesões aparecerem por 7 a 10 dias, com a dose total administrada primeiramente toda manhã e depois em manhãs alternadas. A dose de manutenção deve ser o mais baixa possível. Muitos pacientes requerem o tratamento de manutenção, que usualmente pode ser descontinuado após meses ou anos se nenhuma lesão aparecer durante o decurso de várias semanas, sem tratamento. Metotrexato, ciclofosfamida, azatioprina, ouro ou ciclosporina, usados sozinhos ou com corticosteróides, reduzem a necessidade de corticosteróides e minimiza os efeitos indesejáveis do uso prolongado de corticosteróides, mas as drogas mencionadas também apresentam sérios riscos. Plasmaferese, combinada com imunossupressor, para reduzir o título de anticorpos também tem sido eficiente. As infecções cutâneas ativas são tratadas com antibióticos sistêmicos. Podem ser necessários procedimentos de isolamento reverso. O uso generoso de talco, no paciente e nas roupas de cama pode prevenir que a secreção da pele sofra adesão; curativos hidrocolóides podem ser úteis. A prevenção de infecção secundária das ulcerações pode ser feita aplicando-se creme de sulfadiazina argêntica nas erosões. PENFIGÓIDE BOLHOSO O penfigóide bolhoso é considerado uma doença auto-imune por apresentar anticorpos contra a zona da membrana basal da epiderme (local da lesão histológica) geralmente encontradas no soro e na pele de pacientes. Sintomas, sinais e diagnóstico O penfigóide bolhoso deve ser diferenciado do pênfigo, doença linear de IgA, eritema multiforme, erupções medicamentosas, penfigóide benigno de membranas mucosas, dermatite herpetiforme e epidermólise bolhosa adquirida. Como em muitas outras doenças bolhosas, a biópsia revela bolhas subepidérmicas. O achado de anticorpos IgG no soro contra a zona de membrana basal à imunofluorescência indireta geralmente confirma o diagnóstico. À imunofluorescência direta, o complemento, a IgG, ou ambos, são ligados à área da zona de membrana basal de pele perilesional. Tratamento DERMATITE HERPETIFORME Esta doença ocorre com maior freqüência em pacientes de 30 a 40 anos de idade; é rara em negros e orientais. A deposição de IgA em quase toda pele aparentemente normal e perilesional. Em cerca de 75 a 90% dos pacientes e alguns de seus parentes, há associação com enteropatia glúten-sensível assintomática. Existe também uma incidência aumentada de doença tireóidea. Os iodetos podem exacerbar a doença mesmo quando os sintomas estão bem controlados pela terapia com dapsona. Sintomas, sinais e diagnóstico O quadro histopatológico típico só é observado nas lesões recentes e na pele perilesional e se caracteriza pela formação de microvesículas na extremidade das papilas dérmicas, que por sua vez apresentam infiltrado de neutrófilos. A imunofluorescência direta de pele aparentemente normal e perilesional sempre é positiva para IgA na derme papilar e se constitui num importante dado para o diagnóstico. Tratamento Pacientes recebendo dapsona ou sulfapiridina devem fazer hemograma inicial e semanalmente, por 4 semanas, pode-se repetir o exame a cada 2 a 3 semanas por 8 semanas e o exame pode ser feito, a seguir, a cada 12 a 16 semanas, porque agranulocitose pode ocorrer em qualquer período. Anemia hemolítica e metemoglobinemia são os efeitos colaterais mais freqüentemente observados. Estes podem ser muito graves em pessoas com deficiência hereditária de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD). Raramente ocorre hepatotoxicidade ou neurotoxicidade. Caso o paciente apresente hemólise significativa ou problemas cardiopulmonares decorrentes do uso de dapsona, a medicação deve ser trocada por sulfapiridina, já que esta, geralmente, não provoca hemólise. DOENÇA LINEAR DE IMUNOGLOBULINA A Em doença linear de IgA lesões cutâneas bolhosas ou vesiculares freqüentemente ocorrem dentro de um arranjo herpetiforme. Há uma preferência por áreas flexoras. Como na dermatite herpetiforme, o quadro principal é queimação grave e prurido de lesões cutâneas, mas não ocorre a simultânea enteropatia de sensibilidade ao glúten. O tratamento de escolha é dapsona. Outras opções de tratamento incluem glicocorticóides sistêmicos, tópicos e intralesionais, ciclofosfamida, azatioprina, colchicina, e nicotinamida e ciclosporina. |