Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

Seção 20 - Distúrbios Provocados por Agentes Físicos

Capítulo 277 - Choque Elétrico

São lesões causadas por uma corrente elétrica que passa através do corpo.

A corrente elétrica pode ser atmosférica (relâmpago) ou produzida pelo homem (isto é, de linhas de alta tensão ou de baixa tensão).

Patogênese
O tipo de corrente se relaciona com a gravidade da lesão. Em geral, a corrente contínua (CC) cuja freqüência é zero (embora possa ser intermitente ou pulsátil) é menos perigosa que a corrente alternada (CA), que é o tipo geralmente usado nos EUA. Os efeitos da CA no corpo dependem da extensão na freqüência; correntes de baixa freqüência, particularmente a de 50 a 60Hz (ciclos/s) que é a mais comum, e é usualmente mais perigosa do que correntes de alta freqüência e é 3 a 5 vezes mais perigosa que a CC de mesma tensão e amperagem. A CC tende a provocar contrações convulsivas, impedindo freqüentemente a vítima de se expor mais à corrente. A CA a 60Hz provoca tetania muscular, freqüentemente, “fixação” da mão ao circuito, resultando em exposição prolongada com queimaduras graves se a voltagem é alta.

Geralmente, quanto mais elevadas a voltagem e amperagem, maior é a lesão provocada por ambos os tipos de corrente. Correntes de alta voltagem (> 500 a 1.000V) tendem a provocar queimaduras profundas e as de baixa voltagem a causar congelamento do circuito. O limiar de percepção da CC que entra na mão é de aproximadamente 5 a 10 miliampères (mA); para CA, 60Hz, aproximadamente de 1 a 10mA. A amperagem máxima que pode causar contração da musculatura flexora dos braços, mas que ainda permite que o indivíduo retire sua mão da fonte de corrente, é chamada de corrente “que solta”. Para a CC, este valor é de aproximadamente 75mA para um homem de 70kg; para
CA é de aproximadamente 15mA e varia com a massa muscular. Uma CA de baixa voltagem 60Hz (110 a 220V) que passa pela pele intacta e atravessa o tórax durante uma fração de segundo pode provocar fibrilação ventricular, quando sua amperagem for de 60 a 100mA; e 300 a 500mA de CC é necessária. Se a corrente for conduzida por uma via direta para o coração (por exemplo, através de um cateter cardíaco ou eletrodos de marca-passo), amperagens muito menores (< 1mA de CA ou CC) podem produzir fibrilação.

A resistência corpórea (medida em ohms/cm2) concentra-se primariamente na pele e varia diretamente com as condições da pele. A pele seca, bem ceratinizada e intacta apresenta uma resistência média de 20.000 a 30.000 ohms/cm2; para a palma da mão ou planta do pé com grande calosidade pode ser de 2 a 3 milhões de ohms/cm2. A resistência de uma pele úmida e delgada é de aproximadamente 500 ohms/cm2. Se a pele for puncionada (por exemplo, por corte ou abrasão ou agulha) ou se a corrente for aplicada às membranas mucosas úmidas (por exemplo, a boca, o reto, a vagina), a resistência pode ser de apenas 200 a 300 ohms/cm2 . Se a resistência da pele for baixa, o paciente pode apresentar pouca ou nenhuma queimadura extensa, mas ainda assim pode apresentar uma parada cardíaca se a corrente atingir o coração. Enquanto a corrente atravessa a pele, pode ocorrer dissipação de uma grande quantidade de energia, se a resistência da pele for elevada, e queimaduras extensas podem resultar na produção de pontos de entrada e de saída com carbonização dos tecidos entre eles (calor = amperagem2 X resistência). Os tecidos também são queimados internamente, dependendo de sua resistência; os nervos, os vasos sangüíneos e os músculos conduzem a eletricidade muito melhor que os tecidos mais densos (por exemplo, o tecido adiposo, tendões e ossos) e são comprometidos preferencialmente.

O trajeto da corrente através do corpo pode ser crucial na determinação de lesão. A condução de braço para braço ou entre um braço e um pé é muito mais perigosa que o contato entre a perna e a terra, porque a corrente pode atravessar o coração. As lesões elétricas da cabeça podem produzir convulsões, hemorragias intraventriculares, parada respiratória, fibrilação ventricular ou assistolia, ou, como efeito tardio, cataratas. O ponto de entrada mais comum para eletricidade é a mão, seguida pela cabeça. A saída mais comum é o pé. Com a CA, saída e entrada são termos inadequados, porque não é possível determinar o local de entrada ou o de saída. Os termos mais apropriados são “fonte” e “terra”.

Em geral, a duração do fluxo de corrente através do corpo é diretamente proporcional à magnitude de lesão corpórea, exposições maiores acarretam lesões dos tecidos, permitindo o fluxo de corrente interno. A passagem da corrente através dos tecidos pode gerar calor, provocando lesão de tecidos internos.

Sintomas e sinais
Os efeitos e as manifestações clínicas das lesões produzidas pela eletricidade dependem da interação complexa dos fatores discutidos anteriormente. As funções fisiológicas podem estar alteradas, resultando em contrações musculares involuntárias de grande intensidade, convulsões, fibrilação ventricular ou parada respiratória (apnéia) devido a lesão de SNC ou paralisia muscular. Lesões térmicas, eletroquímicas ou outras (por exemplo, hemólise, coagulação de proteínas, trombose vascular, desidratação, avulsão de músculos e tendões) podem ocorrer. Com freqüência, ocorre uma combinação desses efeitos. Na pele, pode-se observar a presença de queimaduras elétricas bem delimitadas, que comprometem os tecidos subjacentes. A alta tensão pode provocar necrose de coagulação dos tecidos internos entre os pontos de entrada e saída da corrente. Pode ocorrer edema maciço quando as veias sofrem coagulação e os músculos se edemaciam, tendo como conseqüência a síndrome do compartimento. Hipotensão, distúrbios hidroeletrolíticos e mioglobinúria acentuada podem provocar insuficiência renal aguda. O paciente pode apresentar deslocamentos, fraturas e lesões fechadas em conseqüência de contrações musculares ou quedas secundárias ao choque elétrico (por exemplo, eletricidade pode assustar uma pessoa, causando queda).

As vítimas de “acidentes de banheira” (em que um indivíduo úmido [ligado à terra] tipicamente estabelece contato com um circuito de 110V – por exemplo, de um secador de cabelo ou rádio), podem sofrer uma parada cardíaca sem apresentar queimaduras.

O raio raramente produz lesões na entrada ou na saída e raramente provoca lesões musculares ou mioglobulinúria, porque o tempo de duração da corrente é muito curto para lesar a pele e tecidos. O raio, caindo sobre uma pessoa, produz poucos danos internos além do curto-circuito elétrico do sistema (por exemplo, assistolia cardíaca, confusão mental, perda de consciência, seqüelas neuropsicológicas). Algum tipo de amnésia ocorre com freqüência. Alterações neuropsicológicas, síndromes de dor e alteração do sistema nervoso simpático são as seqüelas mais comuns, a longo prazo. A parada cardíaca é a causa mais comum de morte.

Crianças pequenas que chupam fios de extensão podem ter queimaduras na boca e nos lábios. Elas podem provocar não apenas deformidades estéticas, mas também problemas de crescimento nos dentes, mandíbula e maxilar. Um perigo adicional é o da hemorragia da artéria labial quando a crosta se separa, 7 a 10 dias após a lesão, o que ocorre em até 10% dos casos.

Prevenção
São essenciais a educação e a adesão às orientações, assim como bom senso e cuidado ao se lidar com a eletricidade. Qualquer dispositivo elétrico que se toca ou que possa ser tocado pelo corpo e represente potencialmente um risco de vida deve ser ligado à terra adequadamente e incorporado em circuitos com equipamento de segurança. Dispõe-se de disjuntores de corrente, os quais atuam quando uma corrente tão baixa quanto 5mA escapa para o solo, são excelentes dispositivos de segurança e facilmente disponíveis. A prevenção contra os raios, envolve o bom senso, o uso de dispositivos de segurança adequados, ter conhecimento das previsões do tempo e procurar um abrigo apropriado nas tempestades.

Tratamento
O contato entre a vítima e a fonte de corrente deve ser interrompido. O melhor método é desligar a fonte, se isto puder ser feito rapidamente (por exemplo, acionando a chave do circuito, desconectando-se o dispositivo da eletricidade ou cortando-se os fios, com instrumentos isolados); caso contrário, deve-se afastar a vítima da fonte geradora de corrente. Em caso de corrente de baixa tensão (110 a 220V), o indivíduo deve se assegurar inicialmente que ele está bem isolado da terra e, em seguida, deve usar um material isolante (por exemplo, roupas, madeira seca, borracha, cinto de couro) para liberar a vítima. Caso se suspeite do envolvimento de correntes de alta tensão, é melhor deixar a vítima sozinha, até que a energia possa ser desligada. As linhas de alta e baixa tensão nem sempre são facilmente distingüidas entre si, particularmente em ambiente externo.

Depois de se ter certeza de que é seguro tocar na vítima, deve-se realizar um rápido exame das funções vitais (por exemplo, palpação dos pulsos radial, femoral ou carotídeo; função respiratória; e nível de consciência). A primeira prioridade é estabelecer a permeabilidade das vias aéreas. Se o paciente não apresentar respiração espontânea ou se ele tiver tido uma parada cardíaca, é necessário realizar os procedimentos de ressuscitação imediatamente (ver Cap. 206). O tratamento do choque e outras manifestações das queimaduras maciças são discutidos no Capítulo 276.

Depois do restabelecimento das funções vitais, deve-se avaliar a natureza e a extensão da lesão e tratá-la. Deve-se excluir a presença de deslocamentos, fraturas, lesões fechadas e da coluna cervical. Se houver mioglobinúria, é essencial a terapêutica com alcalinização e reposição de volume para reduzir o risco de precipitação de mioglobina no túbulo renal (Ver Cap. 276). Pode estar indicada a administração de manitol ou furosemida para aumentar o fluxo renal. É necessário fazer a profilaxia contra o tétano em todos os casos de queimadura.

Os exames básicos que devem ser solicitados em todos os casos de lesões produzidas pela eletricidade incluem o ECG, as enzimas cardíacas, o hemograma e o exame de urina, analisando-se especialmente os parâmetros referentes à mioglobinúria. A monitoração cardíaca por 12h está indicada se houver qualquer indício de lesão cardíaca, arritmias ou dor torácica. Qualquer deterioração do nível de consciência torna obrigatória a TC ou IRM, a fim de excluir a possibilidade de hemorragias intracranianas.

As vítimas de lesões por raio podem necessitar de ressuscitação cardíaca, monitoração e cuidados de suporte. A restrição hídrica é a regra, por causa da possibilidade de formação de edema cerebral.

Crianças com queimaduras nos lábios devem ser encaminhadas para um pedodontista ou cirurgião bucal familiarizado com a avaliação e assistência contínua a longo prazo para tais lesões.

topo